A rampa de lançamento rumo a Los Angeles 2028
Em que consiste a Academia João Correia? Porque surgiu a necessidade de criar este projeto?
A criação da Academia surge de uma necessidade urgente de apoiar a nova geração de atletas e proteger o futuro da modalidade. Depois de 30 anos dedicados ao desporto e de ter fechado um ciclo de alta competição nos Jogos de Tóquio, fui obrigado a afastar-me por motivos de saúde. Quando voltei a estar mais perto da realidade desportiva, cerca de três anos depois, deparei-me com um cenário que me tocou profundamente: temos atletas com um potencial técnico fantástico, mas a modalidade estava a regredir. Faltava-lhes um rumo, acompanhamento especializado e condições reais de trabalho. O momento que mudou tudo e que acelerou este projeto foi o Campeonato de Portugal de 2024. Custou-me muito ver atletas de elite, com a exigência de provas internacionais pela frente, a competir sem a estrutura e a preparação que o alto rendimento exige. Foi aí que percebi que não podia simplesmente cruzar os braços. Nem estes jovens, nem o trabalho de décadas de tantas pessoas que elevaram esta modalidade, mereciam que chegássemos àquele ponto. Embora a minha saúde na altura me fizesse hesitar se seria o momento certo para avançar, o coração falou mais alto. A Academia João Correia nasceu para responder a esta necessidade. O nosso propósito é pegar na experiência que acumulámos e oferecer a estes jovens, a orientação técnica e as condições de excelência que precisam para chegar ao topo.
Qual é a principal ambição da Academia e dos seus atletas?
A nossa grande meta no horizonte são os Jogos Paralímpicos de Verão de 2028, em Los Angeles. Queremos claramente que os nossos atletas cheguem lá na máxima força, no topo das suas capacidades e preparados para competir com os melhores do mundo. Para percebermos exatamente onde nos situamos, utilizámos recentemente as competições na Suíça como o nosso grande barómetro. É uma prova estrategicamente duríssima, muitas vezes considerada mais competitiva do que os próprios Jogos Paralímpicos, por ser aberta a todos e não estar limitada a quotas por país. Ali, o foco vai além das medalhas: o objetivo são os tempos, a subida no ranking e a superação de recordes europeus e mundiais. O caminho faz-se passo a passo, mas a nossa ambição é clara e assumida: estamos a trabalhar para que a Academia João Correia tenha atletas em Los Angeles a lutar por medalhas. Sabemos que há sempre detalhes a melhorar, mas a nossa cultura é de superação diária e sei que vamos lá chegar.
Que atletas estão mais bem classificados?
Atualmente, a Academia João Correia conta com dez atletas, sendo que metade deste grupo já compete diretamente no escalão de alto rendimento. O grande rosto desta nova geração e a nossa principal referência internacional é o Mamudo Baldé, que detém a melhor marca europeia na sua disciplina com uma margem muito confortável. O percurso do Mamudo sintetiza na perfeição o espírito de resiliência que queremos transmitir. Ele compete hoje ao mais alto nível mundial, enfrentando uma tremenda desvantagem tecnológica: começou a época com uma cadeira de rodas de competição de cinco mil euros, conseguiu evoluir para uma de onze mil, mas compete contra adversários diretos com equipamentos de engenharia que custam entre 30 a 35 mil euros. O Mamudo consegue anular essa barreira e vencer competições de prestígio, como a recente vitória numa prova de elite internacional integrada no calendário mundial, puramente com base numa condição física extraordinária, paixão e talento. Para além do valor individual, o sucesso coletivo deste grupo assenta numa estrutura técnica de excelência no Jamor, onde os atletas treinam diariamente, faça chuva ou faça sol. A coordenação do dia a dia está a cargo da Valquíria Campelo, a maior referência nacional em atletismo de cadeira de rodas, e contamos com a mentoria estratégica internacional da treinadora britânica Jenny Archer.
Depois das provas em Arbon e Nottwil, que balanço faz deste importante ciclo competitivo na Suíça, que reúne os melhores atletas do mundo de atletismo em cadeira de rodas?
Se avaliarmos bem, a Academia ainda não completou sequer um ano de atividade, mas os resultados obtidos na Suíça provam que já estamos a quebrar barreiras históricas. Passámos de uma realidade em que Portugal ocupava frequentemente os últimos lugares nestas classes para ver os nossos atletas a discutirem as posições de topo com a elite mundial. Isto é o reflexo direto de termos começado a acreditar verdadeiramente no potencial deles. Atualmente, gerimos um grupo muito diversificado, que inclui lançadores, atletas de velocidade e competidores de Tricicletas (Frame Running), uma vertente fantástica direcionada para atletas com paralisia cerebral, onde uma estrutura de três rodas os apoia pela cintura e lhes permite fazer a progressão da corrida com os pés, devolvendo-lhes a liberdade de correr.
Que impacto têm estas provas internacionais no ranking mundial e na preparação para o caminho rumo aos Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028?
O impacto direto resume-se a uma palavra fundamental: motivação. Em Portugal, os nossos atletas passam grande parte do ano a competir de forma isolada, lutando contra o relógio. Quando os colocamos nestes palcos internacionais, a mentalidade muda por completo. Sentir a vibração do estádio, alinhar na pista e competir lado a lado com a elite mundial ativa um foco competitivo e uma energia que não se conseguem replicar em contexto de treino. É esse o verdadeiro combustível que os faz querer continuar a praticar e a evoluir. Portanto, o grande benefício deste ciclo vai muito além dos pontos para o ranking mundial. Estas competições dão aos nossos atletas a capacidade competitiva, o ritmo de corrida e a maturidade psicológica necessários para que, quando chegarem a Los Angeles, olhem nos olhos de qualquer adversário e saibam que pertencem àquele lugar.
A Academia nasceu com uma forte missão de inclusão. Hoje sente que também está a ajudar a profissionalizar o atletismo em cadeira de rodas em Portugal?
Sem dúvida, esse é o nosso grande objetivo. A inclusão é o nosso ponto de partida, mas a profissionalização é o único caminho sustentável para a excelência. Queremos que os nossos atletas tenham as mesmas oportunidades que já se verificam nas grandes potências internacionais. Infelizmente, a realidade em Portugal ainda obriga a muitos sacrifícios. Mesmo no escalão de velocidade, a maioria dos atletas tem de conciliar os treinos com trabalhos em regime de part-time para subsistir. Esta fragmentação de rotinas compromete diretamente um dos pilares mais negligenciados na alta competição: o descanso e a recuperação física. O cenário ideal pelo qual lutamos é a dedicação exclusiva. Sabemos que isto levanta questões complexas sobre o futuro, pois é imperativo salvaguardar a transição de carreira e a inserção no mercado de trabalho após a reforma desportiva. Esta é uma luta justa e comum a atletas Olímpicos e Paralímpicos, que carece de medidas estruturais e legislativas mais profundas por parte do Estado.
Quais continuam a ser os maiores desafios para os atletas portugueses do atletismo adaptado competirem ao mais alto nível internacional? Os maiores obstáculos concentram-se em três áreas: técnica, financeira e logística. É para responder a estes desafios que a Academia orienta a sua atuação diária. No plano técnico, o treino em cadeira de rodas exige conhecimento altamente especializado. Por isso, estabelecemos uma parceria com a Faculdade de Motricidade Humana (FMH), com o objetivo de formar novos técnicos e aproximar a investigação científica da prática desportiva. No plano financeiro, procuramos apoiar os atletas no acesso a equipamentos de elevado desempenho, reduzindo a diferença competitiva face às principais potências internacionais. Já na vertente logística, muitas das batalhas travam-se longe da pista. A complexidade do desporto adaptado exige uma estrutura sólida e profissional, capaz de garantir aos atletas as condições necessárias para competir ao mais alto nível.
Muitas vezes o público vê apenas as medalhas e os recordes. O que é que não se vê no dia a dia de um atleta paralímpico?
A verdade é que as nossas dificuldades começam no exato momento em que acordamos. As pessoas aplaudem o segundo em que cruzamos a meta, mas o verdadeiro heroísmo está na odisseia invisível que enfrentamos todos os dias para conseguir, simplesmente, chegar à linha de partida. Quando coloco as rodas na pista, não sinto qualquer barreira. Ali, o destino só depende de mim, e essa é uma das raras situações no quotidiano em que um atleta com deficiência motora severa tem total autonomia sobre as suas ações. No desporto adaptado, quanto mais complexa é a classe e a limitação do atleta, mais implacável e exaustiva se torna a sua rotina diária. Falo de barreiras que começam logo em casa e se estendem por todo o trajeto: o esforço contínuo para chegar ao estádio, o processo de transferência para a cadeira de corrida e a preparação de todo o material técnico. Tudo isto gera um desgaste enorme antes de darmos o primeiro impulso. É por isso que um dos grandes propósitos da nossa Academia é criar uma rede de proteção para que estes jovens cheguem ao Jamor o menos fatigados possível, permitindo-lhes canalizar a energia estritamente para a performance. O desporto deve ser superação, nunca sofrimento. Para que as medalhas aconteçam no topo, é preciso compreender que o maior adversário de um atleta paralímpico não está na pista ao lado, está nas barreiras invisíveis do quotidiano que somos obrigados a vencer todas as manhãs.
Para além da vertente competitiva, que impacto sente que a Academia tem tido na vida dos jovens atletas que integra?
O impacto mais profundo e imediato é algo que nenhum cronómetro consegue medir: é vê-los sorrir. Testemunhar a camaradagem, a energia contagiante e o espírito de grupo que eles desenvolvem diariamente enquanto colegas de equipa, é a nossa maior validação. Atualmente, estamos a canalizar essa força através da criação de conteúdos digitais, porque queremos contagiar, não apenas os nossos parceiros, mas toda a comunidade com esta vitalidade. Para muitas pessoas que vivem isoladas, as plataformas digitais são a sua principal janela para a sociedade. Queremos entrar por essa janela para inspirar os jovens e, acima de tudo, as suas famílias, ajudando-as a superar o superprotecionismo e o medo do preconceito que, tantas vezes, os condiciona a não sair de casa.
Qual a importância de apoios como o da Kaizen Gaming no crescimento da Academia e na concretização destes objetivos internacionais?
Este apoio é determinante para transformar ambição em resultados concretos. Graças ao contributo da Kaizen Gaming, a Academia João Correia poderá adquirir duas cadeiras de corrida de alta performance, totalmente personalizadas às necessidades dos atletas. Este investimento representa um passo essencial para garantir condições de treino e competição ao mais alto nível, potenciando o desempenho e a segurança dos atletas. O impacto deste apoio vai muito além da aquisição de equipamento. Estas cadeiras permitem melhorar a eficiência biomecânica, aumentar a segurança durante os treinos e competições, reduzir o risco de lesão e criar condições para uma evolução mais consistente do desempenho. São ferramentas essenciais para que atletas como Mamudo Baldé e Rafael Neto possam continuar a melhorar os seus recordes pessoais e a definir objetivos de excelência, incluindo a qualificação para os Jogos Paralímpicos de Los Angeles 2028. Simultaneamente, este apoio reforça a nossa missão de promover e valorizar o atletismo em cadeira de rodas em Portugal, dando maior visibilidade à modalidade e inspirando a comunidade através de exemplos de superação, dedicação e inclusão. Ter parceiros como a Kaizen Gaming significa poder olhar para o futuro com confiança, continuar a elevar os padrões do desporto adaptado e criar um impacto real na vida dos atletas e da sociedade.

